Entre a sede visceral de conquistar o mundo e o impacto inevitável da exaustão, ANARA inaugura a era mais confessional de sua carreira com o lançamento de “Dopamina”. Lançada pela FA1CON Records com produção de DaniDrama e Tinno, a faixa combina synthpop e elementos cinematográficos para retratar tanto a euforia da busca pelo sucesso quanto os colapsos do burnout. O single atua como a porta de entrada para o seu primeiro álbum conceitual, marcando uma virada estética e temática em sua trajetória.
Na entrevista a seguir, a artista se aprofunda nos bastidores dessa confissão e reflete sobre como a obsessão por resultados afetou sua saúde e seus relacionamentos. Ela aborda a urgência de encarar a própria vulnerabilidade sem filtros, detalhando o processo de transformar dores reais e crises de ansiedade em narrativa musical, longe da busca por uma perfeição inalcançável.
Por fim, a cantora debate as barreiras enfrentadas por mulheres pretas na indústria pop e a constante tentativa do mercado de limitá-las a estereótipos. ANARA resgata a história de sua família como principal motor de sua determinação e compartilha os aprendizados de uma jornada pautada pelo compromisso ancestral, pela teimosia em realizar seus sonhos e pela busca por um caminho mais gentil consigo mesma.
Na letra, você expõe que a mesma busca que impulsiona também gera burnout e solidão. Em que momento você percebeu que seu vício em vencer estava cobrando um preço alto demais?
Eu acho que percebi quando o meu corpo começou a me obrigar a parar. Porque eu sou uma pessoa que dificilmente para por escolha própria, estou sempre on e não recomendo (risos). Quando eu coloco uma coisa na cabeça, eu vou tentar até onde eu conseguir. Então durante muito tempo eu fui normalizando o cansaço, exaustão, distância da minha família, perda de relacionamentos (já foram uns 4 por conta da arte…) e até momentos em que eu já não estava bem fisicamente mas falava que era só mais um pouquinho, só hoje, só dessa vez, só nesse lançamento.
Só que chega uma hora em que não é mais uma decisão. É como a batida de carro que existe dentro da própria música: você está em alta velocidade, correndo em direção a algum lugar, e de repente alguma coisa que você não controla te força a parar. Pra mim, foram momentos de doença, burnout, estafa e exaustão. E foi aí que eu comecei a entender que aquilo que me impulsionava também estava me destruindo. Eu ainda não sei se encontrei um equilíbrio. Acho que Dopamina existe justamente porque eu ainda estou tentando entender como continuar querendo tanto alguma coisa sem me destruir no processo.
Sendo uma mulher preta no pop, como você enxerga as barreiras do mercado que tentam te colocar em caixinhas e como Dopamina rompe com isso?
Eu acho que eu ser uma mulher preta fazendo pop, por si só, já carrega muitas camadas porque a gente ainda não vê isso com tanta frequência. E existe uma expectativa muito específica sobre como uma mulher preta deve existir artisticamente, sobre quais gêneros ela deve cantar, quais assuntos ela deve abordar e até sobre a forma como ela deve se apresentar. Eu não quero existir dentro de uma única possibilidade. Eu sou uma pessoa delicada, gosto de coisinhas fofas e femininas, gosto da fantasia, da teatralidade, de pop, de música eletrônica, de música conceitual e orgânica, musica clássica.. Mas eu também tenho medo, sou vulnerável, tenho momentos em que não sou forte e não quero que a minha arte precise existir o tempo inteiro como resistência ou militância.
Dopamina rompe com isso porque ela me coloca em um lugar extremamente humano. Eu estou falando sobre ambição, frustração, desejo, exaustão, obsessão e vulnerabilidade. E decidi que essa era é sobre isso. Eu quero ter o direito de explorar todas as minhas camadas como artista, sem precisar cumprir uma expectativa sobre o que uma mulher preta deveria representar.
Você menciona a honra aos seus antepassados como motor dessa jornada. De que forma a história da sua família se reflete nas linhas e na energia dessa música?
Isso está muito presente em mim. Eu venho de uma linhagem de pessoas que tentaram e não conseguiram. O sonho do meu pai era ser cantor sertanejo e ele não conseguiu realizar esse sonho. Minha mãe já passou fome e foi faxineira durante anos, e assim como meu pai, trabalhavam em 2 empregos pra conseguir construir a vida em São Paulo. O pai do meu pai foi escravizado. Então existe uma distância muito pequena entre a minha vida e uma história em que as pessoas da minha família simplesmente não tinham as possibilidades que eu tenho hoje. E eu acho que isso criou em mim uma sensação muito forte de que eu preciso fazer alguma coisa com essa oportunidade, e eu vou fazer.
Existe algo que foi ensinado para mim e para muitos dos meus ancestrais de que o “trabalho dignifica o homem” de que é através do trabalho que a gente consegue conquistar alguma coisa. Então eu trabalho muito, às vezes até mais do que deveria, estou sempre ocupada e utilizo TUDO o que ganho para construir minha carreira na musica. Não acho 100% certo mas serei resistência até quando não puder mais.
Essa história aparece em Dopamina nesse sentimento de que eu não posso desperdiçar tempo, de que eu preciso conseguir, de que eu quero chegar em um lugar que talvez muitas pessoas antes de mim nem pudessem imaginar ocupar. Então, ao mesmo tempo que essa ambição é completamente minha, eu sinto que ela também carrega uma história muito maior do que eu.

A faixa é a “primeira confissão” de um álbum conceitual. Como a narrativa da letra prepara o público para o que vem pela frente?
Eu acho que Dopamina abre uma porta para o lugar mais interno desse álbum. A gente foi muito minucioso na construção do projeto. Não existe uma música que entrou simplesmente porque a gente gostou dela. Todas as faixas foram pensadas para cumprir uma função dentro da narrativa e contar partes diferentes da mesma história. E eu vejo esse álbum muito como um álbum confessional. Eu estou colocando para fora coisas que eu fui descobrindo sobre mim durante esse processo: a minha ambição, a minha relação com trabalho, dinheiro, sucesso, exaustão, raça, feminilidade, pertencimento, vulnerabilidade.
Dopamina apresenta justamente um dos conflitos centrais dessa história: eu quero chegar muito longe, mas qual é o preço disso? E será que vale a pena? Então ela prepara o público para um álbum em que eu estou me perguntando o tempo inteiro até onde eu consigo ir e convido o público a se questionar junto comigo, vale a pena tudo isso?
O que você diria hoje para a ANARA do início da carreira ao olhar para tudo o que precisou enfrentar para colocar esse single no ar?
Eu acho que eu diria: “você não faz ideia do que vai precisar atravessar”. Porque quando eu comecei eu só tinha um sonho muito grande e muita vontade de fazer acontecer. Eu não tinha acesso, não tinha pessoas da música na família, não tinha estrutura e nem sabia direito como esse mercado funcionava. E eu passei por muitas coisas que aquela menina jamais conseguiria prever e que me assustaram… Mas eu também diria para ela continuar sendo teimosa.
Porque eu acho que uma das coisas que me trouxe até aqui foi justamente essa capacidade quase irracional de acreditar que eu vou conseguir. Quando eu coloco alguma coisa na cabeça, eu começo a procurar uma maneira. Então eu diria para ela continuar acreditando, mas talvez tentar ser um pouco mais gentil consigo mesma durante o caminho.. é o que eu venho tentando fazer pelo menos. Porque chegar lá é importante para mim, mas eu estou entendendo que conseguir chegar inteira também precisa ser.

